- A baía existe desde quando hein?
- Não sei. Deve estar escrito em algum lugar por aqui. Aliás nunca tinha observado que aqui tinham painéis com orientações turísticas!
- Tá aqui! Desde 1979 (“shakedown 1979. cool kids never have the time”), governo Kubitschek.
- Olha só! As pessoas da cidade usavam esse espaço como praia!
- E daqui saia um barco todos os dias às 15h para Guaporé.
Marcelo observava o espaço. Nunca estivera ali antes. Gustavo e Lucia resgatavam lembranças de passeios da escola, shows de rock e esportes praticados na baía. Marcelo mantinha o olhar distante, não compartilhava daquelas histórias.
Sentados em bancos de pedras rústicos, observavam a cidade. Tarde cinzenta, um frio incomum para aquele vale. Pouco movimento. Especialmente na baía.
Escutavam apenas o barulho do sapato do guarda que vinha conferir o ambiente. Passava assobiando, a passos lentos. Cumprimentava com um “boa tarde”, manifestação típica da simpatia daquele povo, que gostava de trocar palavras. Parava e observava o aeromodelo.
- O aeromodelo ainda está aberto pra visitas?
- Não. Agora será reformado. Junto que toda a estrutura da baía. Você pode aproveitar para tirar umas fotos, ele não vai mais ficar desse jeito.
- E o que farão aqui?
- Um parque. Vão destruir a pista.
- Que pena...
Lucia e Ana costumavam vir à baía no seu tempo de adolescentes.
- Lembra do show dos Silvérios aqui?
- Eu não vim...
- Claro que você veio, a gente se divertiu muito.
- Ah! É mesmo. Silvérios era bom não?
Marcelo teve seu olhar desviado pela chegada de uma bicicleta. Nela estava um rapaz sozinho que olhou ao redor, também não fez barulho e sentou-se no gramado, um pouco distante. Acendeu um cigarro.
- Nossa, nem vi essa bike chegando – observou Gustavo.
A chegada do garoto na bicicleta parece ter acordado Marcelo que sugeriu:
- Vamos dar um volta de carro!
- Vamos onde?
- Sei lá, escolhe um lugar aí no mapa! Deixe-me ver....parque dos girassóis, é muito longe?
- Muito! Também não estou a fim de andar de carro!
- Vamos andar na VII então.
- Não...vamos descer um pouco na baía.
Os três levantaram e começaram a andar em direção à beirada.
Neste instante outro carro estacionava próximo ao garoto da bicicleta. Desciam outros dois meninos, cumprimentavam com um aperto de mão e acendiam seus cigarros.
Olhavam-lhes de longe. Pareciam tentar identificar que outro grupo ocupava aquele imenso espaço em reforma enquanto escutavam o assobio do guarda.
- Estes dias eu vim aqui à noite.
- À noite?
- Vim caminhar por aqui e escutei um som que vinha do outro lado da baía.
- Que som?
- Não sei, som de uma festa, música alta, pessoas chegando fantasiadas!
- Sei..
- Daí fiquei me imaginando naquela festa!
- Que falta do que fazer não? E você tava fantasiado do que?
- Ah! Não cheguei a pensar nisso só me imaginei naquela festa, dançando!
- E começou a dançar aqui? – perguntou Lucia em tom de deboche
Gustavo respondeu um “sim” encabulado. Lucia deu uma gargalhada, imaginando a cena e olhou para trás, onde estavam os três meninos. Também acendeu um cigarro.
Foi então que, levantando-se do chão, com sua calça um pouco suja de barro e grama devido à garoa da manhã, Marcelo insistiu:
- Vamos dar uma volta de carro?
Lucia dirigiu-se a Gustavo e fez-lhe um gesto com a cabeça, convidando-o a seguir em frente.
