- O que me acontece é que me arreganham os olhos! Eles sobem assim pra cabeça e a minha memória some!
As inúmeras rugas na face indicam não somente as marcas do tempo afinal Tina não conta tantos anos de vida. Indicam as marcas físicas do sofrimento.
Quando a conheci contou-me que sentia muitas dores no corpo devido ao atropelamento sofrido. Dizia que o joelho arroxeava, mal conseguia se agachar. Descreveu sua recuperação: havia usado um colete de aço por cerca de um ano. Não acreditei de pronto nesta cena medieval até a confirmação do seu irmão.
Há dias vinha percebendo que o remoto controle que ainda tinha sobre seus pensamentos vinha desaparecendo. Começou a se alimentar de uma forma peculiar e não se tratava de um interesse por novidades gastronômicas. Misturava arroz e feijão com gelatina, leite fervente com arroz. Estas misturas levavam seu estômago a rogar por socorro. Tina pedia um remédio e afirmava que a medicação para dor organizava suas idéias.
Certa vez perdeu-se nas ruas. A confusão começou dentro do ônibus. Iniciou um discurso em alto e bom som sobre a doença dos nervos. Em seguida a inquietude motora a fez levantar e sentar no banco como se estivesse sentada numa mola. O cansaço a fez dormir e, em conseqüência, passar do ponto de descida. Procurou retornar ao terminal urbano mais próximo porém não conseguiu entrar afinal seu cartão já havia computado uma passagem e, segundo ela, a carteirinha gritou.
Trabalhou muito em seu meio século de vida, em condições muito precárias e sem ganhar dinheiro, totalmente assujeitada, quase com um animal, praticamente sem voz.
Fitava-me de longe, sempre que me alcançava com um olhar que me atravessava, que me pedia ajuda e clamava por um pouco de paz.
