quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Quando virei à esquina percebi um ponto de luz que não vinha de longe. Lá estava ele, há uns 50 metros de distância com a sua lanterna na mão, apontando-a em minha direção. Cumprimentou-me com um aperto de mão e um tapinha nas costas, como de costume. Murmurou algo que eu não entendi. Certamente, se eu estivesse sentada, me daria um tapinha nas pernas também. Se eu fizesse um sinal de positivo com o dedão, questionando se estava tudo bem, diria: “assim é pileque né?”. Não se tratava de alguém previsível apesar de já conhecer algumas de suas maneiras de lidar com as exigências da vida.
Segui em frente e observei que ele me fitava até que eu desaparecesse do seu olhar. Não sei ao certo se ele sabia o meu nome.
Gostava de guardar a lanterna no bolso da sua jaqueta, acesa, por mais que o lembrasse que assim sua pilha gastaria mais rápido. Não se importava. Às vezes trazia neste mesmo bolso copos descartáveis, materiais de desenho, fitas adesivas, objetos de toda natureza. Em dias de inverno, vinha sem casaco e sem meia. Não sei se de fato sentia frio. Acredito que, ao menos, sentia um frio diferente daquele que as pessoas comuns sentem.
Em noites de insônia, após discutir com a matraca, que era como chamava sua mãe – uma japonesa que mal falava o português – saia da sua casa e se encaminhava para o que chamava de terceiro turno. Descia na farmácia que ficava no andar térreo do seu prédio e conversava com o pessoal que estava no terceiro turno de trabalho. Lá ganhava os tais objetos de toda natureza que me mostrava.
Além dos objetos, muitas vezes pedia adesivos com preços, com códigos de barra, os quais distribuía por toda sua pele, especialmente nos braços.
Queria ter uma namorada porém com uma ressalva: não poderia ser viúva. Com essas, dizia, já tinha experiências prévias.
Gostava muito de desenhar. Através dos seus desenhos podia-se ter uma idéia da sua visão de mundo, um tanto desagregada assim como seu pensamento. Talvez faltou-lhe desenhar mais, criar mais, produzir uma singularidade para que pudesse ter sido salvo da loucura.