quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Estela inicia o texto com uma memória musical bastante óbvia para seus últimos dias: “Posso sair daqui pra me organizar, posso sair daqui pra me desorganizar. Da lama ao caos, do caos a lama, um homem roubado nunca se engana” (Science).
Obviedade faz bem porque marca a diferença no meio de muitas surpresas já que a enchente não estava nos planos dos meteorologistas. Falando em diferença, a cidade coberta de lama nada tem a ver com a ordem e a limpeza daquele povo. Não há um milímetro onde a lama não esteja. Sorte existe quando há só lama. Em alguns espaços há lama e água. Em outros, lama, água e árvores caídas. Ainda, lama, água, árvores caídas e pedras. Mais, ainda, lama, água, árvores caídas, pedras e restos de casas. Lamentável cena.
Tirando a lama, a água, as árvores caídas, as pedras e os restos de casas, têm-se ainda os tiroteios dentro de condomínios devido à entrada de saqueadores, que tem facilidade para adentrar por conta dos muros derrubados pela força da correnteza.
Então, recapitulando: lama, água, árvores caídas, pedras, restos de casas e tiroteio.
Em alguns momentos, talvez para acalmar a alma ou para romancear e imaginarizar a situação, ou até mesmo para se desesperar mais um pouco (“e se não parar de chover?”), Estela sentiu-se como numa história do Saramago (com a ajuda das imagens do Meirelles), especialmente quando escutou a notícia de que a chuva absurda caia apenas naquela região. Em todas as cidades vizinhas já havia cessado. Pareceu-lhe a história da morte que deixa de matar em apenas um país. Ou dos votos em branco que ocorrem apenas na capital.
Como a música marca os momentos da vida de Estela, um pouco de muduglyfashion, e uma caricatura da cena que já foi expressa há 10 anos, pelos enlameados the smashing pumpkins. Para os curiosos ou para quem quiser relembrar:

Com menos glamour, é claro!
E, para finalizar, mais uma memória musical. Caso ainda tenha faltado reflexão:

“A gente se acostuma com tudo
A tudo a gente se habitua
E até não ter um lugar
Dormir na rua
A tudo a gente se habitua
Me habituei ao pão light
À vida sem gás
O meu café tomo sem açúcar
E até ficar sem comer
Sem te ver
A gente custa mas se habitua
Sem giz, sem água
Sem paz, sem nada
Não vai ser diferente
Se eu me for de repente
Se o céu cai sobre o mundo
E o mar se abrir
Em um inferno profundo
Se acostumou sem querer
Ao salto alto
Salário baixo, à vida dura
E até ficar sem tv
É bom pra você
Televisão ninguém mais atura " (John)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

- Você viu isso?
- Que coisa! Parece que esqueceram de desligar lá em cima não?
A chuva começou na quarta-feira de manhã. Parecia mais uma trovoada comum da região naquela época do ano. A diferença foi que ela não parou. E aumentou nos dias que se seguiram.
Luiza observou a água subindo no campo de futebol até as traves desaparecerem, centímetro a centímetro. A energia caiu, o gás terminou após uma explosão ocasionada pelas chuvas e o fornecimento de água tornou-se escasso. Iniciou-se a fila para ir ao banheiro, numa tentativa de que todos aproveitassem a mesma descarga. Foi combinado que todos escovariam os dentes apenas duas vezes ao dia. As crianças choravam, já estavam entediadas presas nos 150 m2 do apartamento. A água cor de barro fazia uma moldura contornando toda a cidade.
Os boatos começaram logo que a tragédia iniciou: falava-se de uma onda gigante que atingiria o segundo andar do prédio, ocasionada por uma ponte que havia caído num ribeirão (queda de pontes causam ondas gigantes?). A onda gigante mexeria com as estruturas do prédio que corria o risco de desabar.
Nos picos de energia que retornava, Luiza observava moradores que perderam suas casas chorarem na televisão. Via sofás que vagavam pela correnteza. Olhava, pelo camarote do horror, pessoas em massa levando seus pertences para o andar de cima do prédio. Os mais céticos cantarolavam “chove chuva, chove sem parar”. Ela repetia baixinho, com lágrimas nos olhos.
Pensava na convivência com aquelas 8 pessoas nestes, até então, três dias. Não estava sendo fácil e em muitos momentos não havia mais o que conversar. Sabe, pela sua tendência à nostalgia, que lembraria destes dias com saudade logo mais.
Luiza, que não era propriamente uma pessoa solidária, comovia-se com o sofrimento dos conterrâneos mas, de verdade, só pensava num banho. Enquanto lavava-se com um pano, aproveitando o que sobrara na banheira dos pequenos, imaginava a água do chuveiro caindo em sua face. Imaginava o shampoo que passaria duas vezes no cabelo, o condicionador, o sabonete líquido, o creme para pentear, o hidratante, a água de cheiro, a loção para o rosto, o renew +25 e o pijama limpo.
Sua imaginação fora interrompida pelo apagar das luzes. A energia voltara a cair.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Estela Bottero detesta quando as pessoas param para conversar em frente a portas ou esquinas. Estela Bottero ama muito poucas pessoas. Estela Bottero aprecia atividades solitárias, ambientes coloridos (“cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores”, Calcanhoto) e silêncio. Estela Bottero gosta de ballet clássico e acha a imagem da bailarina um fetiche. Escuta Killers e odeia Kiss (a banda, é claro). Tem alguns dedos do pé no poser, outros no emo, vários na mpb, outros tantos no samba e fez as pazes com o rock. Estela Bottero não tem time de futebol mas tem escola de samba do coração. Às vezes, Estela Bottero sente-se como uma idosa presa num corpo de 26 anos, adora dormir cedo – e muito. Estela Bottero não sabe cuidar de plantas, diverte-se com jogos de tabuleiro e amigo secreto no final do ano. Aprendeu a não realizar balancetes sentimentais nesta época crítica. Estela Bottero adora romances policiais, histórias fantásticas e literatura despretensiosa, que pretende ser pretensiosa um dia.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Abrindo as comemorações de final de ano desse espaço botteriano, uma homenagem àqueles que adoram comida industrializada ou que já saborearam o bobó de camarão da feirinha do largo da ordem sem nenhum camarão dentro. Vai ver que o camarão constava só no nome.
Enfim, algumas curiosidades:
http://www.comacomosolhos.blogspot.com/

sábado, 15 de novembro de 2008

Amanda começou a sentir o peso da idade quando, ao contar uma história, referia-se a um acontecimento que se passou há mais de dez anos. Quando você é de fato jovem, dez anos atrás remetem à infância, fase onde não há claramente registro de memória.
Passou a receber convites de casamentos, – de amigos, não de familiares onde era a dama de honra – batizados e festas infantis – dos pimpolhos dos seus amigos e não de filhos de parentes. Pouco recebia convites de formaturas. Quando os recebia, comparecia à festa do primo mais jovem, aquele que ela viu nascer. Acompanhava agora o envelhecimento dos pais e a morte dos avós.
Os sinais do tempo surgiram quando passou a usar o renew +25, – sim, aos 25 anos começam a aparecer os ditos “primeiros sinais de envelhecimento”, comprovados esteticamente – iniciaram-se as dores nas costas e a vontade incontrolável de saborear uma sobremesa ou doçura qualquer, como se fosse o que havia de mais delicioso.
Os churrascos entre amigos passaram a começar ao meio dia e não às 3 horas da tarde. A quantidade de cerveja diminuiu, a qualidade da carne melhorou, veio acompanhada de maionese e os doces também estavam lá! As mulheres conversavam sobre receitas, cuidados com os filhos, celulite, tratamento dermatológico e sapatos. Os homens começavam a acumular gordura no abdômen – ok, as mulheres também! – e trocavam dicas sobre como assar a carne, atendiam os bebês que choravam e marcavam a próxima partida de futebol. Os bebês! Estes se destacavam nos pensamentos de Amanda. Pensava em ter um e, eventualmente, cuidava de outros.
A comprovação do envelhecimento chegou quando Amanda reconheceu nos novos movimentos as características de uma década que viveu. Reconheceu a moda, os cortes de cabelo e o estilo musical vigente (“vocês querem 90?”), não por ter visto fotos da mãe ou de revistas: por ter se vestido e ouvido as músicas que se renovavam.
Uma boa noite de sono passou a ser uma experiência impagável, não mais servindo como moeda de troca: não valia mais pelas madrugadas a fio na internet ou pelas baladas homéricas. Ah! As baladas homéricas! A troca de roupas entre as amigas, (“me empresta essa saia?”) o cachorro-quente com purê de batata, o entrar em casa com o sol nascendo, a rouquidão, as risadas, as fotos, os shows (Os shows! Os shows! Os shows!), as vans, as topics e os microônibus, as malas semanalmente (des)feitas! As lembranças!
Amanda não se atreve mais a desligar o despertador, virar para o lado e dormir mais um pouco porque existe algo na sua vida atual chamado cartão-ponto, objeto que veio substituir os 25% de faltas toleráveis durante a faculdade.
Permanecem as confrarias, as baladas homéricas uma vez ao mês e o violão até as onze ou, no máximo, até um pouco depois das onze.
Eis o depoimento de Amanda, uma jovem idosa de 26 anos.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

"Time is never time at all, you can never ever leave without leaving a piece of youth" (Corgan)

Na falta de inspiração, uma lembrança àquele que há muito foi inspirado(r) – inspira à dor? Talvez! – numa tentativa de fazê-la retornar. A inspiração, diga-se de passagem, não a dor!


A nostalgia tem me assaltado noites a fio!
Starla anda rondando meus pensamentos, sinto saudade de cantar a plenos pulmões “today is the greatest day i´ve ever known” e de isso ser verdade!
Após poucas linhas, acho que ele de fato me inspirou dor – Billy Corgan Crashingdown.

Mais (ainda) para os masoquistas, emos e afins:

"We'll try and ease the pain
But somehow we'll feel the same
Well, no one knows
Where our secrets go (...)
Fool enough to almost be it
And cool enough to not quite see it
And old enough to always feel this
Always old, I'll always feel this
No more promise no more sorrow
No longer will I follow
Can anybody hear me?
I just want to be me
When I can I will
Try to understand
When I can I will"
(Corgan)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Bosch - Nau dos Loucos

"Um objeto novo acaba de fazer seu aparecimento na paisagem imaginária da Renascença (...): é a Nau dos Loucos, estranho barco que desliza ao longo dos calmos rios da Renânia e dos canais flamengos. (...) eles existiram, esses barcos que levavam sua carga insana de uma cidade para a outra. Os loucos tinham então uma existência facilmente errante.
(...) Confiar o louco aos marinheiros é com certeza evitar que ele ficasse vagando indefinidamente entre os muros da cidade, é ter a certeza de que ele irá para longe, é torná-lo prisioneiro de sua própria partida. Mas a isso a água acrescenta a massa obscura de seus próprios valores: ela leva embora, mas faz mais que isso, ela purifica. Além do mais, a navegação entrega o homem à incerteza da sorte: nela, cada um é confiado a seu próprio destino, todo embarque é, potencialmente, o último. É para o outro mundo que parte o louco em sua barca louca; é do outro mundo que ele chega quando desembarca"
(Foucault)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Juca, André e Piolho divertiam-se jogando pedras da sacada do segundo andar do pavilhão comercial da Vila do Remorso, onde moravam. Encontravam-se às 18h na casa de Piolho, quando o expediente terminava nos escritórios. Esperavam que todos os funcionários saíssem com exceção do vigia que passava as noites rondando o condomínio. Ele permitia que os meninos entrassem, parecia identificar-se com suas travessuras.
A sacada do segundo piso era ampla, contemplava todo o andar. Os três amigos corriam por todo o espaço com os bolsos carregados de britas ou sementes de árvores que encontravam no caminho.
No pátio do pavilhão havia um chafariz antigo, com uma estátua de anjo coberta de limo. Juca, André e Piolho costumavam fazer campeonatos para ver quem acertava mais pedras na água que cercava o anjo nu.
Num domingo a tarde como outro qualquer os garotos marcaram o encontro às 16h, na casa de Piolho. Como de costume, só o vigia encontrava-se no local e lhes deu passe livre. Ao subirem ao seu local de brincadeiras avistaram três desenhos no chão do pátio: três caricaturas do capeta. A primeira, começando pela esquerda, na cor marrom, a seguinte, vermelha e a última, cinza. Três faces do demônio que cercavam o pequeno anjo do chafariz: duas do lado esquerdo e uma do lado direito. Parecia obra de um grafiteiro. Aquela imagem inquietou os amigos que correram até o vigia:
- Você viu alguém entrando aqui ontem à noite ou hoje pela manhã?
- Vocês sabem que só vocês têm passe livre além dos donos da empresa. Quem mais poderia ter entrado?
- Alguém entrou e fez as pichações!
- Pichações? Dr. Armando vai ficar maluco!
Os três acompanharam o vigia até o segundo andar para que ele pudesse visualizar melhor as imagens do coisa-ruim. Ele ficou surpreso e aborrecido, preocupado com o que diria ao patrão e intrigado por não ter percebido nenhuma movimentação na noite anterior. Refletiu um pouco, tentou identificar se havia cochilado por algum momento.
Seus pensamentos foram interrompidos por barulhos estridentes, uma mistura de risadas com gritos, sussurros, chamados que oscilavam entre uma voz grave e aguda, passando por um tom médio. Assustaram-se os quatro e dirigiram seus olhares para o andar superior. Nada avistaram. Procuraram na esquerda, na direita, olharam-se entre si com olhos de pavor procurando o barulho que ressoava. Nada viram. Finalmente aventuraram-se a desviar o olhar para o pátio interno, perto do chafariz, quando perceberam que a boca de cada belzebu se mexia numa velocidade impressionante, emitindo o som horrendo.