Amanda começou a sentir o peso da idade quando, ao contar uma história, referia-se a um acontecimento que se passou há mais de dez anos. Quando você é de fato jovem, dez anos atrás remetem à infância, fase onde não há claramente registro de memória.
Passou a receber convites de casamentos, – de amigos, não de familiares onde era a dama de honra – batizados e festas infantis – dos pimpolhos dos seus amigos e não de filhos de parentes. Pouco recebia convites de formaturas. Quando os recebia, comparecia à festa do primo mais jovem, aquele que ela viu nascer. Acompanhava agora o envelhecimento dos pais e a morte dos avós.
Os sinais do tempo surgiram quando passou a usar o renew +25, – sim, aos 25 anos começam a aparecer os ditos “primeiros sinais de envelhecimento”, comprovados esteticamente – iniciaram-se as dores nas costas e a vontade incontrolável de saborear uma sobremesa ou doçura qualquer, como se fosse o que havia de mais delicioso.
Os churrascos entre amigos passaram a começar ao meio dia e não às 3 horas da tarde. A quantidade de cerveja diminuiu, a qualidade da carne melhorou, veio acompanhada de maionese e os doces também estavam lá! As mulheres conversavam sobre receitas, cuidados com os filhos, celulite, tratamento dermatológico e sapatos. Os homens começavam a acumular gordura no abdômen – ok, as mulheres também! – e trocavam dicas sobre como assar a carne, atendiam os bebês que choravam e marcavam a próxima partida de futebol. Os bebês! Estes se destacavam nos pensamentos de Amanda. Pensava em ter um e, eventualmente, cuidava de outros.
A comprovação do envelhecimento chegou quando Amanda reconheceu nos novos movimentos as características de uma década que viveu. Reconheceu a moda, os cortes de cabelo e o estilo musical vigente (“vocês querem 90?”), não por ter visto fotos da mãe ou de revistas: por ter se vestido e ouvido as músicas que se renovavam.
Uma boa noite de sono passou a ser uma experiência impagável, não mais servindo como moeda de troca: não valia mais pelas madrugadas a fio na internet ou pelas baladas homéricas. Ah! As baladas homéricas! A troca de roupas entre as amigas, (“me empresta essa saia?”) o cachorro-quente com purê de batata, o entrar em casa com o sol nascendo, a rouquidão, as risadas, as fotos, os shows (Os shows! Os shows! Os shows!), as vans, as topics e os microônibus, as malas semanalmente (des)feitas! As lembranças!
Amanda não se atreve mais a desligar o despertador, virar para o lado e dormir mais um pouco porque existe algo na sua vida atual chamado cartão-ponto, objeto que veio substituir os 25% de faltas toleráveis durante a faculdade.
Permanecem as confrarias, as baladas homéricas uma vez ao mês e o violão até as onze ou, no máximo, até um pouco depois das onze.
Eis o depoimento de Amanda, uma jovem idosa de 26 anos.
