quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Juca, André e Piolho divertiam-se jogando pedras da sacada do segundo andar do pavilhão comercial da Vila do Remorso, onde moravam. Encontravam-se às 18h na casa de Piolho, quando o expediente terminava nos escritórios. Esperavam que todos os funcionários saíssem com exceção do vigia que passava as noites rondando o condomínio. Ele permitia que os meninos entrassem, parecia identificar-se com suas travessuras.
A sacada do segundo piso era ampla, contemplava todo o andar. Os três amigos corriam por todo o espaço com os bolsos carregados de britas ou sementes de árvores que encontravam no caminho.
No pátio do pavilhão havia um chafariz antigo, com uma estátua de anjo coberta de limo. Juca, André e Piolho costumavam fazer campeonatos para ver quem acertava mais pedras na água que cercava o anjo nu.
Num domingo a tarde como outro qualquer os garotos marcaram o encontro às 16h, na casa de Piolho. Como de costume, só o vigia encontrava-se no local e lhes deu passe livre. Ao subirem ao seu local de brincadeiras avistaram três desenhos no chão do pátio: três caricaturas do capeta. A primeira, começando pela esquerda, na cor marrom, a seguinte, vermelha e a última, cinza. Três faces do demônio que cercavam o pequeno anjo do chafariz: duas do lado esquerdo e uma do lado direito. Parecia obra de um grafiteiro. Aquela imagem inquietou os amigos que correram até o vigia:
- Você viu alguém entrando aqui ontem à noite ou hoje pela manhã?
- Vocês sabem que só vocês têm passe livre além dos donos da empresa. Quem mais poderia ter entrado?
- Alguém entrou e fez as pichações!
- Pichações? Dr. Armando vai ficar maluco!
Os três acompanharam o vigia até o segundo andar para que ele pudesse visualizar melhor as imagens do coisa-ruim. Ele ficou surpreso e aborrecido, preocupado com o que diria ao patrão e intrigado por não ter percebido nenhuma movimentação na noite anterior. Refletiu um pouco, tentou identificar se havia cochilado por algum momento.
Seus pensamentos foram interrompidos por barulhos estridentes, uma mistura de risadas com gritos, sussurros, chamados que oscilavam entre uma voz grave e aguda, passando por um tom médio. Assustaram-se os quatro e dirigiram seus olhares para o andar superior. Nada avistaram. Procuraram na esquerda, na direita, olharam-se entre si com olhos de pavor procurando o barulho que ressoava. Nada viram. Finalmente aventuraram-se a desviar o olhar para o pátio interno, perto do chafariz, quando perceberam que a boca de cada belzebu se mexia numa velocidade impressionante, emitindo o som horrendo.