quinta-feira, 30 de outubro de 2008

- O que me acontece é que me arreganham os olhos! Eles sobem assim pra cabeça e a minha memória some!
As inúmeras rugas na face indicam não somente as marcas do tempo afinal Tina não conta tantos anos de vida. Indicam as marcas físicas do sofrimento.
Quando a conheci contou-me que sentia muitas dores no corpo devido ao atropelamento sofrido. Dizia que o joelho arroxeava, mal conseguia se agachar. Descreveu sua recuperação: havia usado um colete de aço por cerca de um ano. Não acreditei de pronto nesta cena medieval até a confirmação do seu irmão.
Há dias vinha percebendo que o remoto controle que ainda tinha sobre seus pensamentos vinha desaparecendo. Começou a se alimentar de uma forma peculiar e não se tratava de um interesse por novidades gastronômicas. Misturava arroz e feijão com gelatina, leite fervente com arroz. Estas misturas levavam seu estômago a rogar por socorro. Tina pedia um remédio e afirmava que a medicação para dor organizava suas idéias.
Certa vez perdeu-se nas ruas. A confusão começou dentro do ônibus. Iniciou um discurso em alto e bom som sobre a doença dos nervos. Em seguida a inquietude motora a fez levantar e sentar no banco como se estivesse sentada numa mola. O cansaço a fez dormir e, em conseqüência, passar do ponto de descida. Procurou retornar ao terminal urbano mais próximo porém não conseguiu entrar afinal seu cartão já havia computado uma passagem e, segundo ela, a carteirinha gritou.
Trabalhou muito em seu meio século de vida, em condições muito precárias e sem ganhar dinheiro, totalmente assujeitada, quase com um animal, praticamente sem voz.
Fitava-me de longe, sempre que me alcançava com um olhar que me atravessava, que me pedia ajuda e clamava por um pouco de paz.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Quando virei à esquina percebi um ponto de luz que não vinha de longe. Lá estava ele, há uns 50 metros de distância com a sua lanterna na mão, apontando-a em minha direção. Cumprimentou-me com um aperto de mão e um tapinha nas costas, como de costume. Murmurou algo que eu não entendi. Certamente, se eu estivesse sentada, me daria um tapinha nas pernas também. Se eu fizesse um sinal de positivo com o dedão, questionando se estava tudo bem, diria: “assim é pileque né?”. Não se tratava de alguém previsível apesar de já conhecer algumas de suas maneiras de lidar com as exigências da vida.
Segui em frente e observei que ele me fitava até que eu desaparecesse do seu olhar. Não sei ao certo se ele sabia o meu nome.
Gostava de guardar a lanterna no bolso da sua jaqueta, acesa, por mais que o lembrasse que assim sua pilha gastaria mais rápido. Não se importava. Às vezes trazia neste mesmo bolso copos descartáveis, materiais de desenho, fitas adesivas, objetos de toda natureza. Em dias de inverno, vinha sem casaco e sem meia. Não sei se de fato sentia frio. Acredito que, ao menos, sentia um frio diferente daquele que as pessoas comuns sentem.
Em noites de insônia, após discutir com a matraca, que era como chamava sua mãe – uma japonesa que mal falava o português – saia da sua casa e se encaminhava para o que chamava de terceiro turno. Descia na farmácia que ficava no andar térreo do seu prédio e conversava com o pessoal que estava no terceiro turno de trabalho. Lá ganhava os tais objetos de toda natureza que me mostrava.
Além dos objetos, muitas vezes pedia adesivos com preços, com códigos de barra, os quais distribuía por toda sua pele, especialmente nos braços.
Queria ter uma namorada porém com uma ressalva: não poderia ser viúva. Com essas, dizia, já tinha experiências prévias.
Gostava muito de desenhar. Através dos seus desenhos podia-se ter uma idéia da sua visão de mundo, um tanto desagregada assim como seu pensamento. Talvez faltou-lhe desenhar mais, criar mais, produzir uma singularidade para que pudesse ter sido salvo da loucura.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

- Olá! Boa tarde! Sobre o que vocês querem falar hoje?
- Eu quero falar sobre o horário de verão?
- Diga!
- Será que o horário de verão vai prejudicar meu sono?
- Algumas pessoas precisam de um tempo para se adaptar!
- Mas será que eu não vou ficar sem dormir?
- Não, fique tranqüila!
- Vai mudar alguma coisa na minha medicação?
- Medicação?
- Por causa do horário de verão!
- Não, é só uma mudança no relógio!
....
- Oi, com licença! Desculpe interromper! Eu preciso te perguntar!
- Humm...
- O horário de verão vai prejudicar o meu sono? Porque o meu sono é uma paz, sossega meus pensamentos!
- Não vai alterar, já conversamos!
- Não vai acontecer nada de mau pra ninguém?
- Não.
- Eu não vou prejudicar ninguém?
- Também não! É só uma mudança nos relógios!

“O silêncio que se sucedeu a estas palavras demonstrou uma vez mais que o tempo não tem nada a ver com o que dele nos dizem os relógios, essas maquinetas feitas de rodas que não pensam e de molas que não sentem, desprovidas de um espírito que lhes permitiria imaginar que cinco insignificantes segundos escandidos, o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto haviam sido uma agónica tortura para um lado e um remanso de sublime gozo para o outro.”
(Saramago)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

- O ônibus que passou agora foi o Vicente Machado?
- Não sei, senhora! Acabei de chegar!
- Esse ônibus demora muito para passar. Tomara que tenha sido outro. Eu moro aqui perto mas não vou a pé porque hoje eu acordei indisposta. Não sei se é uma gripe. Com essas mudanças do tempo a gente se sente mal. Ainda bem que hoje quando eu saí de casa já tinha começado a chover. Então eu peguei meu casaco e meu guarda-chuva. Você não tá com frio?
- Estou!
- Você viu hoje se aquele seqüestrador liberou a moça? Até o horário que eu vi não tinha liberado! Como que pode né? Obrigar a se casar sem amor. Casamento com amor já é difícil, imagina sem. Você é casada? Acho que não, muito novinha. Eu sou solteirona, não me casei nem mesmo depois que os meus pais morreram. Mês passado morreu o meu irmão. Eu vivo com uma senhora que me acompanha. Mas olha, se você não casar, tenha filhos, para pelo menos alguém cuidar de você!
- (sorriso amarelo)
- Mas como eu tava falando, estes ônibus demoram demais! No domingo eu nem saio de casa. Estes dias fui num clube de campo com as crianças, eu não tenho crianças, eram da minha comadre. Fiquei mais de vinte minutos esperando o ônibus. Agora podia ir a pé mas não me sinto bem.Você também vai pegar o Vicente?
- Vou.
- Eu posso pegar o Itupava, ele vem sempre mais vazio. Passa perto da minha casa. Eu moro a seis quadras daqui. Na Carlos de Carvalho sabe? Lá também vive a senhora que cuida de mim. Meus pais deixaram uma casa pra mim em Santa Catarina mas é tão difícil mudar nessa idade né? E minha vizinha disse que lá as senhoras que cuidam de idosos cobram cinco, seis salários mínimos. Muito caro não? Qual ônibus que tá vindo?
- É o Vicente, senhora!
- Ah! É o nosso! Como tá cheio! Qual vem atrás? É o Itupava? Vou pegar esse, ele sempre vem mais vazio! Até logo, mocinha!
- Até!

terça-feira, 14 de outubro de 2008


um, dois, três, quatro.....quinhentos e setenta e nove carneiros e duzentos e quinze gatinhos!
se ao menos fosse produtivo...

....

Fabi e Monique estavam sentadas na varanda do bar e, ao fundo, escutavam a buzina dos carros. Em um início de noite de sexta-feira chuvosa o trânsito fica ainda mais complicado.
- Vou ligar pro Luca. Combinei que iríamos até a casa dele mas com esta chuva não dá! Vou pedir para que ele venha até aqui.
Fabi levantou-se e foi ao banheiro. Quando retornou Monique lhe disse que já estava tudo resolvido. Ele já estava saindo de casa e iria até o local. Monique contava com a companhia de Fabi e Luca até à hora do aniversário da sua avó. Fabi imaginava que logo ligaria para o namorado para que ele viesse buscá-la. E Luca saia de casa com a intenção de buscá-las para que fossem até a sua casa ouvir um lançamento.
Luca chegou falando ao telefone. Conversava com Jorge e, logo após cumprimentar Monique, entregou-lhe o telefone e foi ao encontro de uma amiga.
- Ooooiii!
- Quem é?
- Como quem é?
- Hehe, o que você está fazendo aí?
- Vim ver o Luca. Como estão as crianças?
A conversa foi rápida, Monique nem recorda ao certo o que conversaram. Lembrou-se que Jorge falara algo sobre uma viagem no próximo domingo, para qual lhe oferecia carona.
Fabi já havia pedido a conta quando Luca chegou. Levantaram-se os 3, dirigiram-se até a saída e protegeram-se da garoa fina que voltara a cair.
- Onde vamos agora?
- Vamos ali no café do Erich
- Mas ali não é mal-freqüentado?
- Claro que não! Fica tranqüila!
Luca sentou-se à mesa e logo pediu seu chá verde. Monique observou que Luca fazia sempre o mesmo pedido e não resistiu, pediu o mesmo chá. Teve de confessar que também gostava muito.
Os três iniciaram uma animada conversa . O clima estava bom, resgataram histórias, riram bastante, reação natural entre amigos que não se viam há tempos mas que sabiam que isso não fazia tanta diferença. Sentem falta um do outro, isso é certo, porém o encontro é natural e satisfatório.
Luca interrompe o papo e convida Monique e Fabi para o acompanharem até a pizzaria:
- Depois vamos lá em casa ouvir o lançamento!
- Agora não dá, eu tenho um compromisso, minha avó faz 80 anos hoje!
- A dona Manu?
- Dona Manu é a minha tia, minha avó é Roberta!
- Ah é! Então você vai até lá em casa ouvir o lançamento e depois eu te levo na dona Manu! Vamos Fabi?
- Dona Roberta! Não dá! Meu irmão vem me buscar dentro de meia hora!
- E eu preciso ligar pro Fonseca! Por que você não espera com a gente Luca?
- Preciso ir pra casa! Minha mãe já pediu a pizza e eu prometi não atrasar!
- Você ta assim é Luca? Ih, que chato! Logo hoje que eu pensei em passar um bom tempo com os meus dois melhores amigos!
- Eu preciso ligar pro Fonseca! Mas o que eu digo?
- Eu não tô assim meninas! Só estava imaginando que vocês duas fossem lá em casa ouvir o lançamento! E comer pizza!
- O que eu digo pro Fonseca?
- Vamos lá comigo meninas! Só até a pizzaria!
- Vou ligar pro Fonseca!
Luca encara Monique com olhar insistente. Ela aguarda impaciente Fabi terminar a ligação.
- Pronto! Combinei com o Fonseca que o Luca nos leva até o Antenão e lá aguardamos o horário da festa da Dona Roberta. Depois te levamos até lá ok? E quem sabe voltamos a nos encontrar quando você sair da festa!
- Vocês me excluíram da programação então!
- Não excluímos. Só fica mais difícil te inserir, a única coisa que você pode fazer é ir pra casa!
- Mas eu queria ir também!
- Então vá até a sua casa e vê o que você consegue!
Luca olhou desconfiado, com uma ponta de riso na face, achando cômica a pontuação de Fabi. Seguiram até o carro. Restava-lhes aguardar o próximo encontro.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Santa Estela das Canções Perdidas
...
"Como é que é ser encontrado, jogado, desmaiado, orgulho dilacerado, espalhado pelo chão?"
(Marques)
....
É assim...

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

E numa manhã de sexta-feira
Vem me acordar pra passear
Quando eu chegar aos 35
Quero relembrar com todo amor
Por vocês 3
Só vocês 3
“1, 2, 3, 4
Você não me pega
Pique-esconde
Lá vou eu” (JZ)
...
Andam dizendo por aí que o três é um número mentiroso. Tudo que você não sabe como definir coloca o número 3.
Exemplos:
“Já ouvi essa música umas três vezes hoje!”
“É a terceira vez que você me diz isso!”
“Esta noite acordei três vezes!”
Para alguns, o número três é bastante significativo:
Três pessoas com o privilégio de primeiros ocupantes do coração
Três sobrinhos deliciosos
Três amigos especiais da primeira formação
Três grandes implicâncias
Três doces favoritos
Três tentativas com a literatura despretensiosa
Três melhores amigas-cajazeiras
Três experiências antes de escrever a primeira canção
Três tatuagens
Três amores da vida
Três bandas preferidas
Ok! Devo confessar que nas três últimas frases o número foi usado como número mentiroso. Tem a sua eficácia nessa função.