Betina constatou que gosta de dirigir sozinha durante a madrugada, no horário em que o calor da estufa já diminuiu, em uma velocidade controlada, com o som do carro num volume médio, cantarolando automaticamente, sem pensar. Dirigir assim lhe desperta, faz criar mentalmente textos ruins que acaba passando para o papel, aquele seu caderno de redação da quinta série. Avança os sinais que piscam no vermelho enquanto um sorriso assalta-lhe o rosto.
Descobriu algo sobre os sorrisos alheios: gosta de admirá-los, escutar seu som, observar as mudanças que ocasionam numa face. Sorrisos são particulares e impagáveis, identificam as pessoas. Gosta de sorrir também.
Encanta-lhe encontrar pessoas queridas durante a semana, num dia comum, poder acompanhar de perto o que têm feito, parabenizá-los. Gostaria de levar algumas pessoas e lugares consigo por todos os cantos - "eu levo essa casa numa sacola" (Amarante) - assim como se contentaria com unhas eternamente coloridas, odores agradáveis 24 horas/dia e um ar condicionado portátil.
As madrugadas, anteriormente quase inexistentes ou minimamente inexpressivas, vinham se tornando períodos interessantes para Betina. Produtivas, improdutivas ou apenas madrugadas. Começou a pensar que o sono excessivo que sempre foi um dos seus passatempos favoritos, poderia ser perda de tempo. Desejou dormir cada vez menos, no estilo Paty Diphusa (vide Almodóvar).
Torce agora para ser sempre acompanhada até a porta. Torce, como toda força, para que nenhuma vida seja como a última cena de Trainspotting. E, ainda, torce pelo sono que deveria chegar, para que seus cabelos molhados encharquem a fronha limpa do travesseiro. Aperta o play: "will I ever feel this way again? This time I'm ok!" (Davis).
"Rolling with some friends of mine, her love is an amphetamine" (Davis).
