terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

- Oi Beatriz. Como vai você?
- Eu vou bem.
- E o Roberto?
- Também vai bem.
- Vocês continuam fazendo reportagens cheias de aventuras?
- Sim, nós gostamos disso!
- Dá para perceber. Para se meter com o Valdomiro. Vocês não tiveram medo quando se meteram no sequestro de Ana Lucia e Luís?
- Sim, eu tive muito medo mas queria realmente salvar as duas crianças.
- Você foi muito corajosa. Salvou Roberto e as duas crianças. Como deteve Valdomiro?
- Joguei uma pedra na cabeça dele, a polícia veio, eles soltaram as crianças e tudo terminou bem.
- Quem bom né?
- Bom, tenho que ir trabalhar. Roberto já me espera. Foi bom conversar com você. Tchau!
- Tchau. E boa sorte para a próxima aventura.
(Estelinha, há 15 anos. Nome do texto - "Diálogo com uma personagem").
Curioso. E ainda há quem não acredite em inconsciente.
...
Beatriz tornou-se uma mulher sem grandes sonhos próprios. Gostaria de tê-los, e isso mostra-se evidente através de sua contínua aproximação de quem os tem. Admira a característica do sonhador e busca ficar por perto, como se pudesse existir alguma forma de contágio. Tenta mostrar-se prática, o que de fato não gostaria de ser. Sente-se atraída por um mundo romanceado, colorido e fantástico, apesar de temê-lo.
Vive desejando encontrar mais sorrisos a sua volta, mais diversão, mais música, mais rostos felizes, mais positividade hidropônica e mais sabores. Gostaria de não se sentir ameaçada por mosquitos jovens, gordos, (in)significantes e aparentemente inofensivos, que pousam em todos os cantos e sugam, enganando a quase todos. Sabe-se não tão esperta para evitar o engano então se protege.
Se pudesse, compraria três apartamentos e gravaria dois dicos, ou melhor, três, porque, juntando com os bens anteriores, daria trinta e três, no seu ponto de vista e não seis, como o seria para a maioria. Se pudesse, faria com que a maior parte dos dias fosse de inverno, com sol e com cachecol. Escreveria um livro. Instalaria feriado de carnaval em todo o Brasil mesmo no seu país sul. E travaria o relógio, fingindo não saber que o tempo passa independente disso. Somente se pudesse...tem observado que não precisa de nada grandioso para estar feliz.
Valdomiro foi assassinado. Ana Lucia e Luis se casaram. As crianças cresceram, apesar dos pais continuarem chamando-lhes desse modo. Roberto diz viver bem, mas mente.