terça-feira, 10 de fevereiro de 2009


A situação toda escancarou-se quando, pelos idos de 1998, um alemão alto e magrelo numa estufa germânica começou a cantar:"I don't know if my family will go to heeeeeaven". A referência saiu no jornal e Franco, ao ler sobre "I don't know what's happening with my family", divulgou:

- Ô seu Geraldo, olha aqui sobre o que o seu filho anda cantando?

Na mesma década, os Titãs lançaram a música que quase todo bom filho cantarolou em algum momento, a tal da "família ê, família ah, família" que diz na sequência:

"Mas quando a filha quer fugir de casa
Precisa descolar um ganha-pão
Filha se não casa
Papai e mamãe não dão nenhum tostão"
(Antunes & Belloto)

Mais tarde veio a sábia frase dita por dona Chica: "família é bom em porta-retrato".

Mas, na verdade, tudo é muito anterior já que o Outro Pai, o pai de uma horda, disse que o sofrimento, para os humanos, parte de três fontes: dos conflitos internos, das forças da natureza e, principalmente, dos relacionamentos uns com os outros.
Profanam que os laços de sangue unem para sempre, que são eternos, que a família só quer o bem, que há algo de instintual numa proteção materna.
Infelizmente, Débora, em sua (in)útil teimosia, não se alienou a isso, como dificilmente se aliena.

1, 2, 3 e já: aliene-se!
Aperte o botão neon da alienação e siga em frente.
Parece tão mais fácil.
Como agora.
Relacionamentos virtuais, troca de palavras numa rede, café morno, de pijama, sem banho, sem escovar os dentes, esmalte descascado, sacos de lixo, cama desarrumada, fone de ouvido, músicas aleatórias, sem comunicação com o dia chuvoso que faz lá fora!

Não? Tá! Pela teimosia, desaliene-se e vá desarrumar o quarto na casa da mãe.
Débora pergunta-se: quando é a hora certa de tirar tudo que é seu da casa da mãe? Existe o momento em que todos os pertences de um filho são retirados desse ninho? As fotos da infância geralmente ficam...e aquela mecha de cabelo, o álbum do bebê, o pêndulo do berço, pertecem a quem? À mãe ou ao filho? Será que tudo aquilo que vem a partir do momento que o filho adquire um mínimo de autonomia lhe pertence? Será que a sua vida e suas escolhas lhe pertecerão, de fato, algum dia?
Certamente aquele álbum de fotos da adolescência, aquela senha de banco, as fitas cassetes - não as de vídeo, Débora aprendeu a diferença - as canetas, aquela sapatilha rasgada, os e-mails impressos daquele rapaz, o boneco do Bart Simpson e do Animal dos Muppets, o apito, a pulseira, as provas de biologia, as revistas, as cartas - inúmeras - e os bilhetes pertecem ao filho. E é ele que decide o destino.
Qual o momento de jogar quase tudo isso fora a ponto de lotar quatro sacos de lixo de 30 litros? Qual o momento de trocar o segredo da fechadura, de trocar a senha da locadora, de bloquear o cartão do Angeloni?

Débora sofre de crises gravíssimas de nostalgia provocadas por fotos, bilhetes, palavras e afins. Os sintomas que acompanham as crises são lágrimas, sorrisos, olheiras, uma leve tontura, inapetência e confusão mental. Ela nunca sabe definir qual sentimento prevalece: seria a euforia pelas lembranças do bons momentos vividos ou a tristeza pelo fato de terem passado? Bipolar bear, de novo.