Helio resolveu deixar de lado a auto-sabotagem por um tempo. Agradece o inconsciente por ser, às vezes, tão generoso, racional e coerente (?). Auto-piedade, férias para você também! Seu desejo mesmo é deixá-la de lado definitivamente. Até que chegue o dia, deixou ao menos que a tal fosse habitar outros corpos, respirar outros azarados ares. Decidiu-se, por hora, merecedor de coisas boas e escolhas saudáveis. Não cabe a ele decidir muitas das coisas, especialmente aquilo que se passa na cabeça das pessoas, o que desperta nos outros, a opinião sobre si e seu real valor. Cabe se responsabilizar pelo segundo tópico e cabe-lhe, alerta vermelho, a aprender a esperar e a confiar. Aprender a gostar do processo, do desenrolar dos fatos e não esperar pela conclusão. Continuar a saga pela paz e serenidade, fugidias. Aí está o encanto.
Não recorda de nenhum pecado cometido, grave, a ponto de receber uma espécie de auto-condenação. Nada além de uma comum e atrapalhada neurose.
Helio tem constatado obviedades muito interessantes tal como o fato de perceber que o mundo realmente só existe a partir da lente de quem o vê. É claro que o exterior é um fato e pode influenciar positiva ou negativamente o expectator. Destaco: influenciar. Porém atribuir cores ao que se vê e ao que está em volta depende mesmo de quem olha; atribuir a importância real de cada coisa, de cada pessoa. Uma música se torna especial no momento e com a intensidade que está sendo ouvida; de outro modo, pode ser apenas um ruído. Helio deve ter lá as suas qualidade, talvez não visíveis a olho nu.
Ao chegar em casa, resolve logo deitar-se, após um domingo de páscoa cansativo, sem chocolates, mas com doces presentes humanos. Hesita por um instante, olha para o seu criado-mudo e avista o livro de cabeceira - "Como ser legal", por Nick Hornby. Sorri por um instante, constrangido consigo mesmo. Opta por prorrogar ainda o repouso, fecha a janela, encaixa a meia na fresta para evitar que acorde irritado com o barulho do vento durante a madrugada. Decide ligar a televisão e, antes de apertar a opção mute e ficar apenas com o clarão, lhe chama atenção o que passa na tv, cenas de um filme conhecido. Logo a memória camarada lhe ajuda e recorda do que se trata: "A life less ordinary". É o que lhe basta para sorrir novamente de lado e contentar-se verdadeiramente com a espera.
Viver por um triz, sempre quis.
