Havia chegado o momento, os 10 minutos matinais em que Julia subia à biblioteca, sentava-se à mesa e esticava as pernas sobre outra cadeira, por baixo da mesa. Costumava apoiar os cotovelos na bancada, a cabeça na mão esquerda que fazia uma concha em sua bochecha, abria uma pasta com o seu nome, dirigia o olhar para o infinito e entregava-se aos devaneios. Já era a quarta semana que tal procedimento acontecia diariamente. Ocorriam-lhe imagens diversas, alucinações sensoriais e olfativas, sabores, sons, sorrisos, rubores, gargalhadas e alterações na respiração. Fechava os olhos. às vezes pelo sono que sentia e em outros momentos como o objetivo de vetar um sentido para aguçar outros. Refletia, especialmente a respeito de duas idéias que ouvira de mulheres experientes e outrora descartava por não parecer fazer sentido mas que neste momento encaixavam-se, clareavam e até mesmo tranquilizavam suas inquietudes. Idéias que diziam respeito a pontos organizadores de um mundo particular - tralalelo (?) - e geração de vida.
Julia nunca propagandeou tanto a respeito do quanto viver pode ser bom. Do quanto pode ser divertido, calmo, levemente doloroso, confuso, surpreendente e incrivelmente intenso e tranquilo. Parece ter encontrado o que sempre desejou: uma intensidade tranquila ou uma tranquilidade intensa, ainda não sabe bem. Mas tem visto que ambas podem caminhar de mãos dadas.
Gostaria de poder agradecer ou atribuir a alguém as maravilhas do encontro com tal estado de espírito. Talvez a Deus ou ao outro lado, ao destino, à sorte, às circunstâncias, à numerologia, à astrologia ou a quem quer que seja - "Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis, consta nos ovnis, no Pravda, na vodca. Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás: serás o meu amor, serás a minha paz" (Buarque). Mas parece que nada disso basta para justificar.
Julia tem constatado que realmente não há sentido para tudo, que há experiências nas quais as palavras não tem alcance e que isso que fica de pulsional pode ser maravilhoso. Se algo pode justificar o encantamento, caberiam aqui os objetos da pulsão como o olhar e a voz. Uma voz amendoada e um olhar de veludo. Quem sabe aí esteja a questão.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Para o rei da onomatopéia
"Pra ser um rei é só sorrir com amor" (Luis, P.)
Minha folia
É a rainha
Que faz coroação
E seu cortejo
Traduz desejo
Alegra o coração que vai
Devagarinho
Deixando o ninho
Buscando a imensidão
Passeio breve
Seu passo é leve
Compasso de canção
Vem
Pedir passagem
Seguir viagem
Até um clarear
De cor tão bela
Qual aquarela
Eu quero ofertar pra ti
Todos os brilhos
Todos os filhos
Nascidos do cantar
Eu trago a prenda
E a oferenda
Te tiro pra dançar
Dança de rei
Coisa de Deus
Deixa eu ser seu par já
Rosa de luz
Rindo pro céu
Quero cortejar e louvar
Agradecido
Brindo ao destino
Com versos que colhi
Pelo caminho
Desde menino
Poetas que ouvi
Me dão tecido nobre
De ouro e cobre
Com rendas que escolhi
Eu faço o manto
Junto ao meu canto
E ofereço a ti
Na despedida
A estrada é linda
Pra sempre um caminhar
E sopra o vento
Do encatamento
Certeza de voltar
É bom que seja logo
Aos céus eu rogo
Que eu volte para ver
Tanta beleza
Luz da nobreza
Pra sempre eu quero ter
Você e eu
(idem)
O equilíbrio. Com pequenas e sutis rachaduras no vitral da responsabilidade, para construir.
"Pra ser um rei é só sorrir com amor" (Luis, P.)
Minha folia
É a rainha
Que faz coroação
E seu cortejo
Traduz desejo
Alegra o coração que vai
Devagarinho
Deixando o ninho
Buscando a imensidão
Passeio breve
Seu passo é leve
Compasso de canção
Vem
Pedir passagem
Seguir viagem
Até um clarear
De cor tão bela
Qual aquarela
Eu quero ofertar pra ti
Todos os brilhos
Todos os filhos
Nascidos do cantar
Eu trago a prenda
E a oferenda
Te tiro pra dançar
Dança de rei
Coisa de Deus
Deixa eu ser seu par já
Rosa de luz
Rindo pro céu
Quero cortejar e louvar
Agradecido
Brindo ao destino
Com versos que colhi
Pelo caminho
Desde menino
Poetas que ouvi
Me dão tecido nobre
De ouro e cobre
Com rendas que escolhi
Eu faço o manto
Junto ao meu canto
E ofereço a ti
Na despedida
A estrada é linda
Pra sempre um caminhar
E sopra o vento
Do encatamento
Certeza de voltar
É bom que seja logo
Aos céus eu rogo
Que eu volte para ver
Tanta beleza
Luz da nobreza
Pra sempre eu quero ter
Você e eu
(idem)
O equilíbrio. Com pequenas e sutis rachaduras no vitral da responsabilidade, para construir.
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