quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009


Há quem acredite nas leis de Deus.
E há aqueles que acreditam na lei de Murphy. Sim, tudo pode ficar pior.
Após a tempestade, dizem, vem sempre a bonança. Mas é preciso considerar que antes, vem a tempestade. Com ela, pode vir a queda de energia, a espera e os espirros. E ela pode passar, aparentemente, lá fora. E continuar, invisível, internamente.
...
Joana, aos 22 anos, dizia ter cinco músicas da sua vida. Cinco canções que a faziam chorar. Escutou as duas primeiras recentemente, cantarola com frequência a quarta, não recorda qual era a quinta. Hoje estas cinco canções já não tenham mais tanta importância. Talvez ainda sinta algumas alterações físicas e emocionais ao escutá-las. Essas alterações devem estar mais ligadas às crises de nostalgia recorrentes.
Vamos à terceira:

"In the depths of my gloom
I crawl out for you
From the peaks of my joy
I crawl back into
Tearing me down everytime you smile
Every shinning time you arrive"
(Enigk)

A imagem que acompanha essa letra, no encarte do disco, é a de um telefone. Joana não recordava.
Toca. Chama. Desliga. Não atende. Tenta mais uma vez. Desliga. Espera. Espera. Espera. Insiste. E continua.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

re(torno)

"Avante. A gente quer ver. Horizonte distante. Aprumar" (Camelo)


"Vai. Tente mais uma vez. Cai. Levanta. Sem perder de vista. Sem deixar mais pistas. E recomeçar. Se foi apenas sonho deixe estar. Mas, se foi plano corra atrás" (JZ).

Sem muito espaço. Sem pular linhas.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

"Você não pode pedir a atenção de alguém com tanta frequência"
Sábio msn...


Um manual prático para lidar com o seu romance familiar, de utilidade inimaginável quando adquirido aos 2 anos de idade.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Betina constatou que gosta de dirigir sozinha durante a madrugada, no horário em que o calor da estufa já diminuiu, em uma velocidade controlada, com o som do carro num volume médio, cantarolando automaticamente, sem pensar. Dirigir assim lhe desperta, faz criar mentalmente textos ruins que acaba passando para o papel, aquele seu caderno de redação da quinta série. Avança os sinais que piscam no vermelho enquanto um sorriso assalta-lhe o rosto.
Descobriu algo sobre os sorrisos alheios: gosta de admirá-los, escutar seu som, observar as mudanças que ocasionam numa face. Sorrisos são particulares e impagáveis, identificam as pessoas. Gosta de sorrir também.
Encanta-lhe encontrar pessoas queridas durante a semana, num dia comum, poder acompanhar de perto o que têm feito, parabenizá-los. Gostaria de levar algumas pessoas e lugares consigo por todos os cantos - "eu levo essa casa numa sacola" (Amarante) - assim como se contentaria com unhas eternamente coloridas, odores agradáveis 24 horas/dia e um ar condicionado portátil.
As madrugadas, anteriormente quase inexistentes ou minimamente inexpressivas, vinham se tornando períodos interessantes para Betina. Produtivas, improdutivas ou apenas madrugadas. Começou a pensar que o sono excessivo que sempre foi um dos seus passatempos favoritos, poderia ser perda de tempo. Desejou dormir cada vez menos, no estilo Paty Diphusa (vide Almodóvar).
Torce agora para ser sempre acompanhada até a porta. Torce, como toda força, para que nenhuma vida seja como a última cena de Trainspotting. E, ainda, torce pelo sono que deveria chegar, para que seus cabelos molhados encharquem a fronha limpa do travesseiro. Aperta o play: "will I ever feel this way again? This time I'm ok!" (Davis).

"Rolling with some friends of mine, her love is an amphetamine" (Davis).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

- Oi Beatriz. Como vai você?
- Eu vou bem.
- E o Roberto?
- Também vai bem.
- Vocês continuam fazendo reportagens cheias de aventuras?
- Sim, nós gostamos disso!
- Dá para perceber. Para se meter com o Valdomiro. Vocês não tiveram medo quando se meteram no sequestro de Ana Lucia e Luís?
- Sim, eu tive muito medo mas queria realmente salvar as duas crianças.
- Você foi muito corajosa. Salvou Roberto e as duas crianças. Como deteve Valdomiro?
- Joguei uma pedra na cabeça dele, a polícia veio, eles soltaram as crianças e tudo terminou bem.
- Quem bom né?
- Bom, tenho que ir trabalhar. Roberto já me espera. Foi bom conversar com você. Tchau!
- Tchau. E boa sorte para a próxima aventura.
(Estelinha, há 15 anos. Nome do texto - "Diálogo com uma personagem").
Curioso. E ainda há quem não acredite em inconsciente.
...
Beatriz tornou-se uma mulher sem grandes sonhos próprios. Gostaria de tê-los, e isso mostra-se evidente através de sua contínua aproximação de quem os tem. Admira a característica do sonhador e busca ficar por perto, como se pudesse existir alguma forma de contágio. Tenta mostrar-se prática, o que de fato não gostaria de ser. Sente-se atraída por um mundo romanceado, colorido e fantástico, apesar de temê-lo.
Vive desejando encontrar mais sorrisos a sua volta, mais diversão, mais música, mais rostos felizes, mais positividade hidropônica e mais sabores. Gostaria de não se sentir ameaçada por mosquitos jovens, gordos, (in)significantes e aparentemente inofensivos, que pousam em todos os cantos e sugam, enganando a quase todos. Sabe-se não tão esperta para evitar o engano então se protege.
Se pudesse, compraria três apartamentos e gravaria dois dicos, ou melhor, três, porque, juntando com os bens anteriores, daria trinta e três, no seu ponto de vista e não seis, como o seria para a maioria. Se pudesse, faria com que a maior parte dos dias fosse de inverno, com sol e com cachecol. Escreveria um livro. Instalaria feriado de carnaval em todo o Brasil mesmo no seu país sul. E travaria o relógio, fingindo não saber que o tempo passa independente disso. Somente se pudesse...tem observado que não precisa de nada grandioso para estar feliz.
Valdomiro foi assassinado. Ana Lucia e Luis se casaram. As crianças cresceram, apesar dos pais continuarem chamando-lhes desse modo. Roberto diz viver bem, mas mente.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

"É preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê"
(Camelo)
...
"Eu fui professor de português durante anos, me orgulho muito disso e sei bem a diferença entre decepção e desgosto."
...
Se você tem um dicionário em casa, participe da enquente e responda num comentário a diferença substancial entre o significado dessas duas palavras.
Esqueci que não há espaço para comentários.
E que para descobrir a real diferença entre estes significados ter-se-ia que consultar uma teoria do sentido. Ou deitar no divã.
Seguimos em frente com o romance familar do neurótico de cada dia. Em dezembro teve início a nova temporada do seriado mais quente - fervente, da estufa - do momento.
Enquanto isso, aprendam com a Pro Estela a separar as sílabas:
de-cên-cia
con-tro-le
chan-ta-gem
a-me-a-ças
do-en-ça
va-lo-res
hi-po-cri-sia
mo-ra-lis-mo
per-dão
me-ni-na-ve-ne-no
(segundo a nova reforma da língua portuguesa, essa palavra é composta)
res-pei-to
dis-cus-são
VO-RA-CI-DA-DE

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009


A situação toda escancarou-se quando, pelos idos de 1998, um alemão alto e magrelo numa estufa germânica começou a cantar:"I don't know if my family will go to heeeeeaven". A referência saiu no jornal e Franco, ao ler sobre "I don't know what's happening with my family", divulgou:

- Ô seu Geraldo, olha aqui sobre o que o seu filho anda cantando?

Na mesma década, os Titãs lançaram a música que quase todo bom filho cantarolou em algum momento, a tal da "família ê, família ah, família" que diz na sequência:

"Mas quando a filha quer fugir de casa
Precisa descolar um ganha-pão
Filha se não casa
Papai e mamãe não dão nenhum tostão"
(Antunes & Belloto)

Mais tarde veio a sábia frase dita por dona Chica: "família é bom em porta-retrato".

Mas, na verdade, tudo é muito anterior já que o Outro Pai, o pai de uma horda, disse que o sofrimento, para os humanos, parte de três fontes: dos conflitos internos, das forças da natureza e, principalmente, dos relacionamentos uns com os outros.
Profanam que os laços de sangue unem para sempre, que são eternos, que a família só quer o bem, que há algo de instintual numa proteção materna.
Infelizmente, Débora, em sua (in)útil teimosia, não se alienou a isso, como dificilmente se aliena.

1, 2, 3 e já: aliene-se!
Aperte o botão neon da alienação e siga em frente.
Parece tão mais fácil.
Como agora.
Relacionamentos virtuais, troca de palavras numa rede, café morno, de pijama, sem banho, sem escovar os dentes, esmalte descascado, sacos de lixo, cama desarrumada, fone de ouvido, músicas aleatórias, sem comunicação com o dia chuvoso que faz lá fora!

Não? Tá! Pela teimosia, desaliene-se e vá desarrumar o quarto na casa da mãe.
Débora pergunta-se: quando é a hora certa de tirar tudo que é seu da casa da mãe? Existe o momento em que todos os pertences de um filho são retirados desse ninho? As fotos da infância geralmente ficam...e aquela mecha de cabelo, o álbum do bebê, o pêndulo do berço, pertecem a quem? À mãe ou ao filho? Será que tudo aquilo que vem a partir do momento que o filho adquire um mínimo de autonomia lhe pertence? Será que a sua vida e suas escolhas lhe pertecerão, de fato, algum dia?
Certamente aquele álbum de fotos da adolescência, aquela senha de banco, as fitas cassetes - não as de vídeo, Débora aprendeu a diferença - as canetas, aquela sapatilha rasgada, os e-mails impressos daquele rapaz, o boneco do Bart Simpson e do Animal dos Muppets, o apito, a pulseira, as provas de biologia, as revistas, as cartas - inúmeras - e os bilhetes pertecem ao filho. E é ele que decide o destino.
Qual o momento de jogar quase tudo isso fora a ponto de lotar quatro sacos de lixo de 30 litros? Qual o momento de trocar o segredo da fechadura, de trocar a senha da locadora, de bloquear o cartão do Angeloni?

Débora sofre de crises gravíssimas de nostalgia provocadas por fotos, bilhetes, palavras e afins. Os sintomas que acompanham as crises são lágrimas, sorrisos, olheiras, uma leve tontura, inapetência e confusão mental. Ela nunca sabe definir qual sentimento prevalece: seria a euforia pelas lembranças do bons momentos vividos ou a tristeza pelo fato de terem passado? Bipolar bear, de novo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Quando Clarice nasceu todos os astros, junto com a lua-de-sorriso-do-gato-da-alice, numa quarta-feira de madrugada, decidiram que ela seria uma garota cheia de dúvidas.
Clarice cresceu numa estufa sem nunca entender como coisas boas podiam acontecer naquele ambiente. Uma estufa, quem sabe um forno ou ainda uma panela de pressão. Quente, com(pressão). Estufa de praia, perto da praça, da matriz, do charafiz, vindo da serra. Descobriu, há dois dias, reclamando do calor, que o problema não é a estufa em si mas o que se faz dentro dela. Nada de muito brilhante, ok! Pensa agora em, quem sabe um dia, voltar para a estufa. Ou forno, quem sabe ainda, panela de pressão.
Essa garota anda refletindo muito, escrevendo errado, fazendo atos falhos. Não suporta sentir-se insegura, que de fato o é, sempre foi. Deixou-se enganar durante muito tempo por uma maldita auto(in)suficiência. Estela, sua amiga, alertou sobre os perigos dessa armadilha. Dá para suportar? Suporte, Clarice, concentre-se e suporte, uma insegurança por vez, por dia, hora ou minuto. Segundo, quem sabe? É possível!
Clarice deseja com todas as suas forças acreditar nas pessoas, no que elas dizem, nas palavras, nos sentimentos, nos momentos. É surpreendente que não acredite, nem ela mesma crê nessa constatação. Deseja intensamente poder usufruir do que lhe acontece mas peca, sempre. Não usufrui, não se permite. Trava, estraga, teme. Ainda mais quando escuta: "Feelings are intense. Words are trivial. Pleasures remain. So does the pain. Words are meaningless. And forgettable. (nãããããããooooo!) All I ever wanted. All I ever needed. Is here in my arms. Words are very. Unnecessary. They can only do harm" (Gore).
Não! Nega-se. As palavras são reais. Sinceras. Transmitem os fatos. Sim. É isso. As palavras divertem Clarice. Pergunte a três garotas e elas confirmarão.
Implica com pilares, não aqueles de estrutura e base, como andaram cantando por aí. os outros. Com meio-fios, com portões que tem vida própria, com espelhos retrovisores. Não sabe dizer como eles, de repente, surgem na sua frente. Tem vontade de gritar, como uma prima paquita o fez, "sai você!". Mas não o faz! Que péssima mania que os seres humanos tem de não assumir responsabilidades por suas condutas? É sempre o destino, a sorte ou o azar, o poste que surgiu. Clarice sabe de onde eles surgem.
Não faz o tipo "oh céus, ninguém me entende!" mas gostaria que pessoas significativas compreendessem suas atitudes, suas escolhas, a alteridade, a diferença e respeitassem sua autonomia, sua conquista, seus méritos e sua idade. Nao tem grandes pretensões!
"Believe, believe in me, believe, believe..." (Corgan, o original, não o Korgan).
Acredita, vai? Ressoa...ressoa...ressoa...e continua...como o Foo Fighters e o Arkarna. Numa tarde na estufa, com um pouco de vento gelado. Dirigido para o teto, porque é no céu estrelado neon que fica o ar quente.

Tem? Ou têm?

Pera, pera, pera!
Pêra, péra, pera!
Palavras.